Atualmente, sabe-se que o Transtorno do Espectro Autista pode derivar tanto de fatores genéticos quanto de fatores epigenéticos – que ocorrem quando um fator ambiental é responsável por acionar um genético. O primeiro caso tem relação com a herança de falhas genéticas que, presentes no DNA dos pais, podem favorecer o desenvolvimento do transtorno no filho. Na maior parte dos casos, essa influência tem relação com um modelo complexo de herança: o indivíduo apresenta não apenas um, mas vários erros em vários genes. “Existem pelo menos 450 genes que são reconhecidos como de predisposição ao autismo. Alguns estudos sugerem que esse número já esteja em torno de 1200 genes”, explica o neuropediatra Carlos Gadia.

Há também casos em que se consegue encontrar uma falha genética principal. Segundo Maria Rita Passos-Bueno, professora do departamento de genética do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), cerca de 25% dos casos de autismo se encaixam nesse modelo.

Até os dois anos e meio, meu marido não acreditava que o Nicolas tinha algum problema. Os médicos também diziam que não. Recentemente, chegaram os exames genéticos dele. A gente fez um exame simples e, só nele, já deram 4 genes alterados em 4 cromossomos diferentes. 
– Anita Brito, mãe de Nicolas

 

nicolas
Junto com sua mãe, Nicolas ministra palestras sobre autismo por todo o Brasil

Nicolas Brito Sales tem 18 anos de idade. Assim como muitas famílias, seus pais, Anita Brito e Alexsander Sales, demoraram para conseguir um diagnóstico. Apesar dos sinais precoces, foi apenas aos cinco anos que o filho recebeu o diagnóstico, na época definido como severo. Este ano, os exames confirmaram que seu caso se enquadra entre os de origem genética e entre os poucos rastreáveis. Nesse meio tempo, a dificuldade em relação ao diagnóstico não foi a única a ser enfrentada e vencida. Quando criança, Nicolas costumava apresentar crises e chegou a ficar sem se comunicar verbalmente por vários anos. Hoje, considera-se que seu grau de TEA passou de severo para moderado – e ele mesmo conta a sua história em palestras por todo o país.

 


Os casos que envolvem fatores epigenéticos ocorrem de uma forma diferente. Eles englobam influências externas que podem favorecer o desenvolvimento do transtorno. “Existem alguns genes identificados do autismo: se você tem aquela anormalidade genética, certamente será autista. Mas a maioria são genes de suscetibilidade, isto é, existe uma predisposição a desenvolver o transtorno, mas algo precisa fazer ele se manifestar”, explica Gadia.

Entre esses fatores estão incluídos, por exemplo, problemas relacionados à gravidez como prematuridade, lesões ou falta de oxigenação no cérebro do bebê e a contração de infecções virais, como a influenza, durante o início da gestação. O consumo de drogas nesse período também tem sido relacionado com um aumento do risco. Além disso, existem especulações sobre a influência do consumo de determinadas substâncias, como agrotóxicos. Contudo, ainda não há comprovação científica em relação a esse tipo de fator.

“Existe uma série de fatores correlacionados ao autismo, como, por exemplo, viver perto de uma área urbana muito poluída. Isso eleva as chances de ter um filho autista, mas não significa causa”, explica Alysson Muotri, biólogo molecular e professor da faculdade de medicina da Universidade da Califórnia. Segundo ele, a diferenciação entre “causa” e “correlação” é fundamental para se entender como funcionam as influências de cada fator no desenvolvimento do transtorno.

O caso relacionado à poluição, por exemplo, tem relação com o fato de ela aumentar a carga mutacional nas células do corpo. Sendo assim, um casal afetado por esse fator tem mais chances de passar genes com falhas para o seu filho. Uma lógica semelhante se aplica ao caso de casais com idade mais avançada uma vez que, com a idade, ocorre um aumento da carga mutacional das células germinativas. Nos dois casos, não se trata de uma causa, mas sim de uma correlação entre os fatores.

Além de envolverem suas próprias complexidades, as causas do autismo também têm sido relacionadas a mitos. A teoria de que o transtorno pode ser contraído por meio de vacinas, por exemplo, disseminou-se nos últimos anos e, apesar de desmentida por estudos e especialistas, ainda se mostra presente. Muotri esclarece a origem da questão e explica por que é preciso combatê-la.

O que isso tudo significa?

As alterações genéticas encontradas no indivíduo com TEA interferem no desempenho de seu cérebro, fazendo com que ele possua um funcionamento diferente. Segundo Gadia, isso ocorre porque os genes afetados estão localizados na chamada fenda sináptica, ou seja, na conexão entre uma célula neuronal e a outra.

Em um cérebro típico, esses genes seriam responsáveis pela formação de proteínas que permitem a comunicação entre as células cerebrais e servem de guias para dizer para onde elas devem ir durante a formação do cérebro. Já no cérebro autista, ocorre uma falha na formação dessas proteínas, provocando um déficit de hipoconectividade ou seja, diferentes áreas do cérebro acabam se comunicando muito menos do que deveriam.

“É como se nós morássemos em uma aldeia e houvesse estradas que a ligasse a outras aldeias. Essas estradas, no cérebro autista, não foram formadas ou foram mal formadas, levando a caminhos que não deveriam levar”, define o médico. Enquanto isso, uma mesma região do cérebro pode registrar o efeito contrário: uma hiperconectividade, na qual neurônios se comunicam demasiadamente.

Além disso, diante de determinadas situações, áreas cerebrais que seriam ativadas em indivíduos típicos não têm a mesma ativação no caso daquele diagnosticado com autismo. A raiz desses fatores está no mau funcionamento de um mecanismo de formação do cérebro: o Pruning (“poda”, em português), explicado abaixo pelo médico.

Pesquisas

Embora o diagnóstico do autismo ainda seja predominantemente baseado em observação, os avanços das pesquisas possibilitam, hoje, outras formas de se explorar as particularidades de cada caso. A chamada medicina personalizada é um exemplo: por meio de um sequenciamento genético, é possível investigar as causas do transtorno e checar se já existem tratamentos farmacológicos direcionados a casos semelhantes.

Foi nesse contexto que surgiu a Tismoo, uma startup dedicada à análise genética de casos de TEA e de outros transtornos neurológicos. Pioneira mundialmente nesse ramo, ela surgiu no Brasil e já encaminha suas primeiras filiais nos Estados Unidos. Um dos fundadores do laboratório, Muotri explica que a ideia inicial era obter um respaldo governamental para desenvolver a ideia uma vez que, além de atuar diretamente com os pacientes, os sequenciamentos podem dar origem a novos conhecimentos na área de pesquisa do transtorno. Sem uma resposta, ele decidiu, junto com sua equipe, dar continuidade ao projeto por conta própria.

“Na prática, o método faz um sequenciamento completo do DNA para entender que mutações são importantes no quadro da pessoa. Além disso, ele compara os resultados com bancos de dados do mundo todo. No caso de surgirem novas pesquisas ou testes, os pacientes são avisados imediatamente”, explica o biólogo.

Atualmente, a Tismoo oferece três tipos de mapeamento genético. O T-Genn, que consiste na análise do genoma completo; o T-Exom, análise do exoma, que corresponde a 2% do material genético; e o T-Panel, uma técnica específica que identifica alterações em genes comuns do autismo no caso de Nicolas, foi esse o mapeamento responsável por apontar as mutações identificadas até agora. Os preços desse tipo de procedimento dependem de sua complexidade e abrangência, podendo variar entre oito e 30 mil reais.

Uma vez que nem todos os casos de autismo apresentam genes identificáveis, procedimentos como esses não são utilizados como forma de diagnóstico, mas, sim, como um meio de se tentar entender a origem do transtorno naquele indivíduo. No caso de Milena, por exemplo, diferentemente de Nicolas, exames genéticos não constataram nenhuma modificação nos genes. “A gente fez alguns exames e ela passou por três geneticistas diferentes, mas nada foi descoberto”, conta sua mãe, Fausta Cristina.

Outros tipos de exames são oferecidos em instituições públicas como a USP. É o caso do Array-CGH (ou aCGH), um teste que detecta alterações cromossômicas. Segundo Maria Rita Bueno, testes como esse são bastante recomendados para os pacientes com o transtorno.

Intervenções ➔

← O diagnóstico