As formas de tratamento do indivíduo com TEA são definidas a partir do diagnóstico e das particularidades de cada caso. Em geral, indica-se que seja realizado um acompanhamento interdisciplinar, que pode envolver especialistas como psicólogos, psiquiatras, neurologistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e, em alguns casos, fisioterapeutas. A partir da observação de uma equipe como essa é possível entender os sintomas e as eventuais dificuldades envolvidas no desenvolvimento para que sejam, então, definidas as estratégias de intervenção.

“A troca de informação entre os profissionais é essencial. Há casos em que a criança tem muitas horas de terapia mas, pelo fato de esses profissionais não se falarem, o acompanhamento acaba sendo pouco efetivo”, explica a psicóloga Cintia Duarte, completando que o envolvimento da escola também é fundamental nesse planejamento.

Em alguns casos, a utilização de medicamentos também pode se mostrar necessária. Essa intervenção, segundo a psiquiatra Rosa Magaly Morais, é voltada unicamente para o controle de sintomas decorrentes do transtorno, não para tratá-lo por si próprio. Pode parecer confuso, mas a psiquiatra explica que, para haver um remédio para autismo, seria necessário saber exatamente qual é a sua causa – e isso, como vimos, ainda é um desafio.

“É preciso saber qual é a frequência e a intensidade do sintoma. Com base nisso, estabelece-se o que vai ser tratado medicamentosamente. Há também a questão da comorbidade: se ele tem TEA, mas está ansioso, trata-se a ansiedade”, completa.

De acordo com a especialista, a necessidade da medicação não tem uma relação direta com a gravidade do transtorno. Apesar disso, existem certas tendências. Em casos mais leves, a ansiedade e a depressão são transtornos mais comuns. Enquanto isso, segundo Rosa Morais, os casos mais graves tendem a tornar necessário o tratamento de fatores como agressividade e irritabilidade.

Milena, filha de Fausta Cristina, chegou a utilizar medicamentos como Ritalina para controlar a sua atenção quando ia para a escola. “Ela melhorava o tempo de atenção, mas mudava muito, ficava muito apática. A gente deu essa medicação sempre com muito desejo de não precisar dar”, conta Fausta.

Atualmente, a adolescente segue apenas um acompanhamento com homeopatia. “Mas se eu precisar dar alopatia pra ela de novo e se eu avaliar que vai ser bom, eu vou dar. Não tenho a mente fechada pra nenhum tipo de tratamento, a não ser aqueles alternativos e milagrosos”, diz a mãe.

Por trás de casos como esse, há outros em que a prescrição dos remédios gera desconfiança nos familiares. “Quando eu levei ele na psiquiatra, a primeira coisa que ela me falou foi que pediria exames de fígado para ver se poderia entrar com medicação. Eu achei estranhíssimo. Falei: ‘como assim medicação se você nem olhou para ele direito?’”, relembra Odara Gallo, mãe de Franco, 4.

Desde antes do diagnóstico do filho, que tem autismo leve, a mãe já passou a levá-lo em uma fonoaudióloga – passando, depois, a encaminhá-lo a um psicólogo e um terapeuta ocupacional. A ideia de um tratamento medicamentoso, no entanto, foi descartada logo após a experiência da consulta. “Ela disse que com medicamentos a criança fica mais amorosa. Mas ela nem sabia se ele era amoroso ou não”.

Desenvolvimento

Se bem encaminhados, os acompanhamentos podem aumentar significativamente  as chances de progresso em relação a sintomas e defasagens decorrentes do transtorno. O desenvolvimento varia para cada caso e, segundo Rosa Morais, pequenas mudanças também são significativas. “Se eu tenho um paciente que não olhava para mim, mas passou a olhar durante três segundos, ele teve uma melhora enorme. São a essas nuances que temos que nos ater”, diz.

Por outro lado, há casos em que as intervenções não são suficientes para obter resultados tão significativos. A psicóloga Cintia Perez Duarte explica que, quando o autismo se apresenta em comorbidade com uma deficiência intelectual segundo ela, entre 40 e 50% possuem esse quadro , a melhora pode ser mais difícil de alcançar. “Há crianças que têm terapia intensiva desde cedo e não necessariamente vão atingir independência no futuro. Muitas serão dependentes para cuidados básicos e para um desenvolvimento acadêmico adequado”, esclarece.

A psicóloga ressalta, ainda, que o acompanhamento médico não se limita apenas ao indivíduo diagnosticado com TEA. Segundo a psicóloga, o ideal é incluir os familiares nesse tratamento, de modo a orientá-los sobre como lidar com as particularidades do transtorno e colaborar para o desenvolvimento do filho.


Ele teve que começar lá do zero: a se sentar, a ter contato visual e a ter todo um trabalho comportamental para hoje estar do jeito que ele está. Se não tivesse todo esse trabalho, talvez eu estivesse com meu filho trancada dentro de um quarto.”
– Cristiane Ferreira, mãe de Matheus

Matheus Ferreira, 20, é filho de Cristiane Ferreira. Aos três anos, ele foi diagnosticado com Transtorno Global do Desenvolvimento – hoje, enquadra-se em um grau entre moderado e severo do TEA. Antes do diagnóstico, porém, a mãe teve dificuldades para identificar o que havia de diferente com o filho. Para entender o contexto, basta imaginar que há 20 anos as informações sobre o transtorno eram ainda mais escassas.

“Hoje em dia é só colocar autismo no Google. Hoje, quando eu pego o folder da AMA com os sintomas, eu penso que se eu tivesse um eu saberia antes que meu filho tinha autismo. Se esses folders estivessem nas UBS, nos postos de saúde, teria sido muito mais fácil”.

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Matheus realiza sessões de Terapia Ocupacional na Associação de Amigos do Autista (AMA)

Após o diagnóstico, a mãe, que já tinha deixado o emprego para cuidar do filho enquanto o marido trabalhava, passou a se dedicar ainda mais a ele conforme problemas de comportamento e de sono foram surgindo. Há cinco anos, desde que ficou viúva, ela continua a se dedicar em tempo integral ao filho, que não fala e necessita de acompanhamento para realizar atividades e necessidades básicas.

“A grande dificuldade de pais de autistas é que quem convive com alguns graus não encontra pessoas pra cuidar. Uns têm medo, outros não entendem como cuidar. Os parentes também se afastam e, em muitos casos, o pai vai embora”, diz Cristiane.

Desde os quatro anos, Matheus frequenta a Associação de Amigos do Autista (AMA) de São Paulo, onde sua mãe também é voluntária. Lá o jovem é acompanhado de segunda a sexta, recebendo terapias comportamentais e ocupacionais, além de atendimentos fonoaudiológicos e fisioterapêuticos.

A terapia ocupacional promove, além de estímulos lúdicos, métodos como o Treino e Vivência de Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD). “Temos uma cozinha estruturada com imagens que mostram o passo a passo de como fazer café, suco, lanche. A gente também ensina a lavar a louça, dobrar roupas, arrumar a cama”, explica a coordenadora da unidade, Renata Pessoa.


A AMA foi fundada em 1983 por pais de autistas. Nessa época, o autismo ainda era pouco conhecido, o que desencadeou uma série desafios para a instituição, principalmente sobre a sua manutenção financeira. Hoje, com o apoio da Secretaria de Estado da Saúde e também de doações mensais, a instituição oferece atendimento totalmente gratuito e conta com um total entre 300 e 350 assistidos – crianças, jovens e adultos – divididos em quatro unidades de acordo com a idade e grau de comprometimento do TEA. São oferecidos tratamentos de fonoaudiologia, fisioterapia e terapia comportamental e ocupacional.

Outros impactos da terapia

As mudanças comportamentais não são os únicos possíveis efeitos da terapia; eles podem, também, ser observados a nível neurológico. Hoje, utilizando técnicas específicas, como a Tomografia Computadorizada por Emissão de Pósitrons e a Ressonância Magnética Funcional, é possível observar que a ativação de uma área do cérebro de uma criança diagnosticada com autismo pode ser normalizada após intervenções terapêuticas intensivas.

Dessa forma, a criança que não tinha uma região cerebral ativada quando via rostos passa a conseguir ativar essa área de emoção temporal do cérebro. “Isso é uma prova clara de que terapia muda o funcionamento do cérebro. Existem estudos que mostram que genes determinantes da formação de proteínas podem ser ligados ou desligados, baseado na intensidade da terapia recebida”, conclui Gadia.

Embora se considere ideal iniciar o tratamento antes dos 3 anos de idade, a ideia de que ele só funciona nesses casos é combatida pelo médico. Isso porque o desenvolvimento cerebral ocorre até o fim da adolescência. “A intervenção sempre funciona, o que varia é o grau de melhora. Algumas crianças podem receber pouca intervenção e melhorar muito, ou vice e versa. Existe um pequeno grupo que parece melhorar sem intervenção alguma, mas isso é extremamente raro”.

Gadia também destaca que, mesmo com acompanhamento, algumas crianças do espectro podem sofrer mini regressões acarretadas por mudanças no ambiente ou na rotina como mudanças de escola ou de professor , que acabam gerando muito estresse e ansiedade. Como exemplo, o neurologista cita um caso no qual um paciente teve uma regressão repentina porque não reconhecia mais o seu terapeuta, que estava usando um relógio diferente no pulso. “Fatores ambientais, que às vezes são muito sutis, podem causar tamanho estresse e ansiedade que o paciente aparentemente perde habilidades”.

Desinformação

Assim como no caso de outros transtornos, e até mesmo de doenças, o autismo frequentemente é alvo de tentativas de tratamento de origem duvidosa. Em meio a métodos inofensivos, alguns podem até mesmo oferecer riscos à saúde do indivíduo. Além disso, promessas envolvendo melhoras exorbitantes e até mesmo a cura geram falsas expectativas e, eventualmente, frustração por não se obter a melhora desejada.

“Se você colocar no Google ‘tratamento para autismo’, aparecem várias alternativas. Ter sido relatado como tratamento não significa que seja efetivamente uma intervenção baseada em evidências”, explica a psiquiatra Rosa Magaly Morais.

Às vezes, os supostos tratamentos chegam a ter uma origem na ciência, mas são abordados de maneira a tratar estudos e casos isolados como regra. É o caso, por exemplo, dos efeitos da Erva de São João, citada em alguns sites como uma forma de tratamento para os sintomas do transtorno. “Essa erva foi estudada em um trabalho da USP e deu origem a dados importantes. Mas passar isso para um patamar clínico [tratando-a como um medicamento] é um passo muito grande”, explica Maria Rita Passos-Bueno. Além disso, por ter relação com uma falha genética específica, o efeito da planta seria aplicável a um número muito limitado de pacientes. Pelos dois motivos, portanto, buscar por métodos como esse por iniciativa própria não é uma prática recomendada.

A (busca pela) cura

Em alguns casos, a melhora dos sintomas é tão significativa que o indivíduo praticamente deixa de demonstrar sinais evidentes do transtorno. Na visão médica, contudo, essa mudança não é sinônimo de cura. Trata-se, na verdade, de adaptação. “Eles aprenderam e criaram estratégias para viver de maneira mais adaptada ao contexto social.  Mas ainda terão características muito específicas que fazem com que estejam enquadrados no diagnóstico”, destaca Cintia Duarte.

Em relação à ciência, as respostas são um pouco diferentes. De alguns anos para cá, alguns setores passaram a mostrar perspectivas de que a cura pode estar mais próxima de existir. Segundo o neurocientista Alysson Muotri, a perspectiva mais realista até agora envolve a utilização de intervenções que “burlem” os sistemas falhos no cérebro.

A variedade de causas existentes para o transtorno é um desafio nesse quesito. Isso porque o desenvolvimento de drogas é feito com base nos tipos de mutação já conhecidos e estudados pela ciência. Um medicamento desenvolvido para um grupo de pacientes, portanto, não necessariamente funcionaria para outro. “Além dos casos em que a mutação pode não ser conhecida, há também o autismo causado por fatores não genéticos. Nesses casos, não sabemos se esses mesmos medicamentos funcionariam”, explica Muotri.

Para ele, a perspectiva de alcançar pesquisas que beneficiem as pessoas com TEA não envolve apenas um mérito científico. “Eu não consigo me separar entre pai e pesquisador, já sou tudo junto”, descreve o pesquisador, pai de um menino de 11 anos diagnosticado com autismo severo. “É um turbilhão de emoções quando você percebe ou descobre alguma coisa”.

A possibilidade de se desenvolver uma cura para o transtorno é abordada com mais cautela por outros pesquisadores, como Maria Rita Passos-Bueno. Para ela, tratar a melhora dos sintomas como uma forma de cura não é uma perspectiva realista. “O medicamento pode melhorar a parte de interação social, atuar no comportamento e diminuir efeitos colaterais, como a epilepsia. Mas curar significa tornar a pessoa exatamente igual a uma pessoa típica – e isso eu acho difícil, especialmente nos casos severos”, conclui.

Independentemente da cura, os avanços no campo de pesquisa sobre o autismo são fundamentais para se entender cada vez mais sobre o transtorno. Segundo os dois pesquisadores, ao contrário do que se pode pensar, o Brasil não perde para países como o Estados Unidos no quesito de avanço. Por outro lado, ainda tem a melhorar quando o assunto é a conscientização entre os especialistas.

“Informação nós temos toda hora; o desafio é ter treinamento para saber interpretá-la. Temos que nos manter atualizados e treinar pessoas para acompanhar os avanços na área”, diz Maria Rita Passos-Bueno.

Neurodiversidade

Por trás dos fatores científicos, a questão da cura também gera controvérsia em meio aos indivíduos com TEA – mas por um motivo diferente. Para alguns, a ideia de buscar uma cura para o transtorno é ofensiva, significando uma tentativa de forçá-los a se enquadrar em um padrão praticando o que chamam de “neuronormatividade”.

“Não existe a cura, porque a gente nasceu com outro tipo de cérebro. É como você colocar um HD Windows no Apple ou vice e versa, não vai rodar”, diz Lu W, 39. A artista plástica descobriu ter um grau leve de autismo – antiga Síndrome de Asperger – apenas por volta dos 30 anos e, hoje, é crítica em relação a essa busca – assim como William. Em outros casos, como os de Nicolas, Fausta e Cristiane, a questão é vista de formas diferentes.

Inclusão ➔

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